Uso de animais em pesquisas causa divisão na comunidade acadêmica: entenda os dois lados

Camundongos ainda têm sido muito usados nos laboratórios para pesquisas científicas

Uma das grandes discussões que, há anos, persiste no universo científico é em relação ao uso de animais como cobaias para pesquisas. Se, por um lado, existe uma necessidade de buscar medicamentos e até curas para certas doenças, por outro, há a preocupação com uma vida que está sendo manipulada.

Por muito tempo, o uso desses bichinhos, como roedores, nunca foi sequer questionado, mas a pressão feita por grupos e comunidades que não acreditam na utilização de cobaias como único meio de desenvolvimento científico, tem colaborado para mudanças, inclusive, na legislação brasileira.

Além disso, os diversos avanços tecnológicos têm permitido à comunidade científica substituir, gradativamente, esses animais, promovendo, assim, uma relação mais respeitosa e menos agressiva com o meio ambiente.

Uso de cobaias

Sabe-se que, para chegar à determinadas conclusões, no que diz respeito ao funcionamento de substâncias e ativos, é preciso fazer testes. Estes estudos vão dizer aos pesquisadores de que modo tais substâncias irão agir no organismo. É a partir disso que são produzidos medicamentos, vacinas, kits de diagnósticos, etc.

Só que, para não pôr em risco a vida humana, ao realizar pesquisas com essas substâncias, ainda parcialmente desconhecidas, acabamos por recorrer às chamadas cobaias, que são usadas em experimentos científicos.

No entanto, a própria comunidade acadêmica tem se dividido ao pautar o uso de animais para tal fim. Por que, afinal de contas, uma vida teria mais valor que as outras?

Cobaias (ainda) são necessárias

De acordo com Carla de Freitas Campos médica-veterinária e diretora do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), o uso de cobaias para a testagem de substâncias ainda é muito necessária, como afirmou em entrevista à revista Radis, em matéria publicada pela FioCruz.

Ela explica que “ninguém opta por usar animais, havendo métodos alternativos validados e comprovadamente eficazes para aquele teste, mas, ainda hoje, apesar da evolução tecnológica, não existem alternativas válidas para todos os estudos que precisam ser realizados”.

A veterinária explica que, até o momento, as cobaias usadas nos estudos científicos, na sua maioria camundongos, ainda têm uma proximidade maior no que diz respeito ao funcionamento do organismo humano, por isso não podem deixar de ser utilizadas.

Esses animais são necessários, segundo Carla, para que os cientistas consigam conhecer “o comportamento das doenças e entender de que modo se dão as interações das substâncias com os micro-organismos em organismos vivos, para desenvolvermos os tratamentos cirúrgicos ou clínicos, para a imunização de animais e de pessoas, para determinados tipos de testes diagnósticos”.

Isso não significa uma inexistência de princípios no uso desses animais. A ciência de cobaias de laboratório é regida pelos 3Rs: redução do número de animais utilizados, refinamento na condução dos estudos, minimizando o sofrimento dos seres e reposição, ou seja, busca por métodos alternativos.

Lei Arouca

No Brasil, o uso de animais em pesquisa científica é regulamentado pela Lei 11.794, de 2008, conhecida como Lei Arouca — nome dado em homenagem ao autor do projeto, o médico sanitarista Sergio Arouca.

A partir dessa lei, foi criado o Conselho Nacional de Experimentação Animal (Concea), com o papel de expedir e fazer cumprir normas relativas ao uso animal com intuito científico e de ensino, além de avaliar a possibilidade de introdução de técnicas que possam substituir a utilização das cobaias.

Maior consciência no uso de animais

A presença de princípios como os 3 Rs, bem como a regulamentação de leis para o uso de cobaias, são alguns sinais de avanço para que, futuramente, animais não sejam manipulados de forma alguma, pois, “animal não é insumo, é um ser vivo”, como enfatiza a médica-veterinária Maria Inês Doria.

Ela é coordenadora do Mestrado Profissional em Ciência em Animais de Laboratório do ICTB/Fiocruz, primeiro no Brasil a tratar dessa temática. O objetivo é levar o aluno a usar mais os 3 Rs para, em algum momento futuro, abolir de vez essas práticas de manipulação animal.

A pesquisadora conclui dizendo que “é importante entender que, quando se pratica um teste, muitas vezes se está entregando a vida de um animal em prol da vida de pessoas e também de outros animais. Isso tem que ser respeitado. Trabalhamos com a vida e a vida não tem preço”.

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